🔎 Dívida urgente?
#216: Estelionatários usam dados reais, como CPF, e tom urgente de cobrança para enganar vítimas via e-mail e WhatsApp
Oi, quem fala é Luiz Henrique Gomes, editor-assistente da Lupa. Na edição da Lente desta semana, a repórter Carol Macário retoma um tema recorrente no dia a dia da nossa redação: os golpes aplicados em sites que simulam instituições que mexem com o bolso. Mais uma vez, identificamos golpistas que entram em contato com usuários por meios não oficiais, como e-mail e WhatsApp, para enganá-los com um discurso alarmista e convincente. Em uma semana na qual começou o Feirão Limpa Nome, do Serasa, é oportuno alertar para a circulação destes golpes por aí. Boa leitura e um ótimo fim de semana! :)
Limpar o nome sem cair em golpe
Ninguém quer ter o nome sujo. É uma dor de cabeça sem fim: dívidas em aberto podem gerar restrição de crédito, dificultar a abertura de conta em bancos e até trazer problemas no mercado de trabalho. A lista de problemas é grande.
Agora imagine receber um alerta da Receita Federal por WhatsApp ou e-mail, com seu nome e número de CPF mencionados, exigindo que você regularize com urgência pendências financeiras, sob ameaça de bloqueio de todas as suas contas. Parece convincente, mas é golpe: a Receita Federal não solicita pagamentos por telefone, e-mail ou mensagens.

Esta semana, o Serasa começou mais uma edição do Feirão Limpa Nome, ação já tradicional para negociação de dívidas. É um período que costuma ser um prato cheio para golpistas manipularem emocionalmente as pessoas que têm uma ou outra conta em aberto.
O receio de prejuízo financeiro ou de ficar com o nome sujo na praça cega qualquer um e estelionatários sabem bem disso. Por isso, exploram emoções como o medo para manipular vítimas a fornecerem informações pessoais e a fazerem pagamentos, achando que estão, de fato, quitando uma dívida.
O nome disso é engenharia social, termo técnico para a estratégia empregada por golpistas para manipular psicologicamente as vítimas. Vou citar dois exemplos: esta semana, dois golpes muito parecidos desmascarados pela Lupa usavam expressões como “urgente!”, “último aviso até que seu CPF seja bloqueado!” ou ainda “notificação oficial - prazo final!” para convencer usuários da internet de que, de fato, estavam com uma dívida e sem saída.
Um dos golpes usou o nome do Regularize, portal da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), em mensagem enviada pelo WhatsApp, alertando sobre pendências na Dívida Ativa da União. O texto informava, em tom de alarme, que a falta de regularização poderia bloquear valores nas contas bancárias e sugeria, na sequência, a negociação de débitos. Bastava clicar no link e fazer um Pix. Pix para um criminoso, claro.
Além do tom alarmante, estelionatários também copiam o visual dos sites do governo, como cores, fonte, disposição das letras, para tornar todo o processo ainda mais factível. Foi o caso do golpe usando o Regularize e também de outro, que usou o nome da Receita Federal.

Nesse segundo, a mensagem fraudulenta chegou por e-mail — ou seja, golpistas já tinham de antemão informações de contato da vítima. Seguiu a mesma engenharia social de tom alarmista e as cores e fonte dos comunicados oficiais da Receita para convencer a pessoa a informar o número do CPF.
A partir daí, o caminho é muito similar ao de outras fraudes que usam o nome do governo federal: os usuários são direcionados a páginas que imitam as do governo e com frases como “regularize agora”, “última chance”, “não deixe suas contas serem bloqueadas” até finalmente um link para a suposta solução do problema, um código Pix que nada mais é do que a conta de um estelionatário.
Esse tipo de crime é rentável para bandidos porque eles podem enganar milhares de pessoas sem sair de casa. Não é à toa que ações que denunciam golpes e fraudes eletrônicas se multiplicaram no Judiciário brasileiro. Um levantamento inédito feito pelo Jusbrasil em parceria com o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), publicado pela Lupa essa semana, identificou mais de 129 mil decisões judiciais relacionadas a esse tipo de crime no Brasil entre 2010 e agosto de 2025. O aumento ocorreu especialmente a partir de 2017.
Essa análise está em sintonia com o alerta da edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no ano passado, sobre a explosão de estelionatos por meios eletrônicos nos últimos anos — um crescimento de 408% entre 2018 e 2024 (página 20), enquanto todos os tipos de roubos na rua diminuíram 51% no mesmo período.
Um outro dado relevante da pesquisa é que 41,2 mil sentenças sobre estelionatos nos últimos anos envolvem diretamente o meio digital e as redes sociais, como o “golpe do WhatsApp”, o “golpe da central telefônica” e o “golpe do Pix”.
Mas se criminosos são tão convincentes, como se precaver? Aqui vão algumas dicas:
Receita Federal, bancos e outros órgãos do governo não solicitam pagamento ou Pix por e-mail, mensagem de WhatsApp ou SMS. Na dúvida, acesse o site oficial;
O endereço dos sites fraudulentos são formados por letras aleatórias. Esse é um dos primeiros indícios de golpe. Vale sempre conferir se a página tem final “gov.br”, que é o padrão para os sites do governo;
Desconfie de mensagens que tenham tom alarmista.
[📲 Proteja-se dos golpes. Receba nossas principais checagens sobre fraudes digitais no seu WhatsApp. Entre no canal]
O Area, podcast do Instituto Kunumi com produção do Estúdio Novelo, aprofundou, na última temporada, o debate sobre inteligência artificial no Brasil. Os episódios discutem como a IA pode ser confiável e ética, o desenvolvimento de modelos mais eficientes, supercomputação e a aplicação dessas tecnologias voltadas ao combate da desinformação. A proposta dessas conversas é aproximar pesquisas acadêmicas e impacto social, destacando como cientistas brasileiros trabalham para tornar a tecnologia mais transparente e útil ao interesse público. Vale a pena escutar! [Yara Amorim, editora-assistente]
No dia 24 de fevereiro, o conflito entre Rússia e Ucrânia completou quatro anos e a Maldita.es mapeou as principais narrativas falsas que circularam desde 2022: de vídeos fora de contexto a conteúdos gerados por IA, passando por ataques a Zelensky e campanhas para desgastar o apoio internacional. Uma leitura para entender como essas estratégias evoluem e se repetem. Por aqui, a Lupa reúne o que circulou nesses quatro anos – confira que já checamos sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia. [Evelin Mendes, editora]








